A revista "Vice" exagerou? Seu último número é dedicado à ficção escrita por mulheres, e traz um editorial de moda que está causando celeuma: nada menos que a recriação do suicídio de autoras famosas. A matéria já sumiu do site da revista, mas ainda pode ser vista na íntegra aqui.
Tem Virginia Woolf entrando no rio carregando pedras, Sylvia Plath prestes a enfiar a cabeça no forno e por aí vai. São fotos lindas, mas será que são de bom gosto? E desde quando a arte precisa ser de bom gosto? E desde quando editorial de moda é arte?
Claro que foi um acinte a Comissão de Direitos Humanos da Câmara aprovar, justo hoje, o famigerado projeto que permite que psicólogos tentem "curar" seus pacientes gays. Também foi um ótimo lembrete para todos nós, porque essa cambada de fundamentalistas só conseguiu dominar a CDH por causa do descaso dos grandes partidos e da maneira asquerosa como se faz política neste país. Mas é bom lembrar que os evanjas não estão nem aí para os protestos. O enorme rebanho deles é o mais desinformado e manipulável do Brasil. De nada adiantou o discurso do deputado Simplício Araújo (PPS-MA), que lembrou que a cabeça de todos ali está a prêmio. Além do mais, eles mesmos sabem que este projeto tem pouquíssimas chances de se concretizar. Ainda tem que passar pelas Comissões de Seguridade Social e Consituição e Justiça. Na remota hipótese de ser aprovado por ambas, vai a plenário, onde a maioria dos deputados e senadores está com o cu na mão. Se por algum milagre ao contrário passar, tem a caneta de Dilma pela frente, e eu duvido muito que a presidenta não o vete. Ela nunca se posicionou claramente, mas a indicação de Barroso para o STF foi uma pista do que ela pensa sobre os direitos igualitários. Mas Infeliciano e sua gangue estão se lixando: como na ação que o PSC tentou mover contra o casamento gay, a única coisa que interessa é fazer barulho para a arquibancada. Para que pensem que eles estão fazendo alguma coisa contra o grave perigo homossexual, e assim se reelegerem no ano que vem. Nisso tudo, falta a grande imprensa esclarecer um ponto crucial: a proposta é absurda. É a política interferindo no que é ou deixa de ser ciência. Imagine a gritaria se algum parlamentar propusesse que a Engenharia Civil agora "permitisse" casas com tetos flutuantes, sem paredes, colunas ou fundações?
Enquanto os canais brasileiros não tinham outro assunto ontem à noite, o Channel Four britânico exibia uma programação muito mais amena: "The Greatest Shows on Earth", uma série de documentários engraçadinhos apresentados pela jornalista Daisy Donovan. O desta segunda-feira focava no Brasil, "as it prepares to explode onto the world stage with the World Cup in 2014" (prepares? not any longer). E quem estava lá, dando uma entrevista nos bastidores do Miss Bumbum? Pois é, eu nem lembrava mais. Foi em novembro do ano passado. O áudio do vídeo acima, gravado num celular por uma amiga que mora em Londres, não é dos mais claros. Mas eu juro que só falei coisas inteligentíssimas, num inglês de dar inveja à Dowager Countess de "Downton Abbey".
Miguel Bosé teve um chilique durante uma entrevista coletiva no Peru, país que visita com frequência. Ao ser perguntado se já havia provado o ceviche e o pisco sour, o cantor espanhol disparou que não conhecia nenhuma das duas iguarias típicas. Depois emendou: "Você faz ideia de quantas vezes eu me embebedei com pisco sour durante os últimos 37 anos? É isto o que você quer saber? O que você quer que eu diga?" Depois se irritou quando outro repórter questionou qual era a música de que mais gostava de seu repertório. "Essas perguntas se fazem a garotas de 12 anos. Tipo, 'qual é sua cor favorita?'" O desabafo logo gerou um hashtag no Twitter, #PreguntasparaBosé", só com cretinices. Imagina se ele, assumido apreciador de rapazes, estivesse numa coletiva no Brasil dos anos 80. Naquela época nossos jornalistas sempre perguntavam aos ilustres visitantes estrangeiros: "o que você acha do charme e veneno da mulher brasileira?"
Bom dia! Dormiu bem? Então vai jogar uma água no rosto, porque temos muito trabalho pela frente. Desde a manifestação de quinta-feira passada, estou com a renitente sensação de que o Brasil finalmente acordou. O movimento Passe Livre, do qual pouca gente tinha ouvido falar até duas semanas atrás, acendeu o estopim de uma revolta latente que já ultrapassou os meros 20 centavos do aumento da passagem de ônibus (e atenção, "meros" não quer dizer "poucos"). Assim como aconteceu na Turquia, a truculência da repressão policial foi um autêntico tiro no pé do próprio governo. E quando digo governo, quero dizer todos: municipal, estadual, federal, judiciário, legislativo, executivo. Roberto Requião, ex-governador do Paraná, tinha razão no tuíte em que avisou aos colegas para não se rejubilarem com a vaia que Dilma levou na abertura da Copa das Confederações: não foi só ela quem foi vaiada, foram todos os políticos. Todos mesmo, com pouquíssimas exceções. Está todo mundo de saco cheio das alianças espúrias pela tal da governabilidade, todo mundo de saco cheio da FIFA querendo mandar no Brasil, todo mundo de saco cheio ponto. É emocionante ver que as mega-manifestações que acontecem neste exato momento em São Paulo, Rio e Brasília também incluem protestos contra o PEC 37, que basicamente impede o Ministério Público de investigar qualquer político. Também estão reclamando contra a baixa qualidade do transporte, da educação, da gastança mal-direcionada. Agora, muita calma nessa hora: mais do que nunca, nada de depredar estações do metrô ou agências bancárias, que é para não dar razão ao inimigo. Fui contra o quebra-quebra desde o primeiro momento, e continuo contra. Além de injusto, é contra-producente. Mas já estava mais do que na hora desses governos todos despertarem da hipnose auto-induzida de que o Brasil é um sonho intenso, um raio vívido. Paciência tem limite. Winter is coming.
Quatro anos atrás, meu blog se tingiu de verde em solidariedade aos manifestantes pró-Moussavi no Irã. O clérigo reformista foi descaradamente roubado nas eleições presidenciais de 2009. Apavorado com possíveis mudanças, o regime dos aiatolás forjou a reeleição de Ahmadinejad já no primeiro turno, provocando enormes levantes populares nas grandes cidade do país. E também a mais infeliz das declarações de Lula em política externa: o ex-presidente comparou os protestos pela democracia a uma reles briga entre torcidas de futebol. Dessa vez parece que o resultado da eleição foi o melhor possível, para o Irã e para o mundo. Digo "parece" porque é muito difícil ler nas entrelinhas da política iraniana. Já me disseram que quem manda mesmo é violenta Guarda Nacional e que o "líder supremo", o aiatolá Khamenei, é pouco mais do que uma rainha da Inglaterra. Por outro lado, Ahmadinejad foi, além de extraordinariamente mal-vestido, um presidente tão incompetente que não conseguiu nem que seu favorito tivesse a candidatura aprovada. Esta é outra peculiaridade do sistema de lá: só seis políticos puderam concorrer, nenhum muito conhecido e nenhum à esquerda. A campanha durou apenas duas semanas (o que não deixa de ser um alívio) e no final venceu Hasan Rowhani, o único mais ao centro. O que vai acontecer agora? Boa parte da população está exausta das restrições impostas pela república islâmica, e talvez a cúpula do poder tenha percebido que precisa começar uma abertura gradual. Mas talvez não: o Irã ameçou se liberalizar outras vezes, mas nunca conseguiu.
Como é bom querer muito ver um filme e depois não se decepcionar. "Antes da Meia-Noite" é tudo o que eu esperava da continuação de "Antes do Amanhecer" e "Antes do Por-do-Sol", dois dos filmes mais realisticamente românticos de todos os tempos. Dessa vez a realidade quase sufoca o romance: finalmente casados há nove anos, depois de outros nove suspirando um pelo outro, Jesse e Céline agora tem um par de gêmeas e toda uma vida em comum, com o inegável desgaste trazido pelo tempo. Ou talvez pelos filhos: todo o problema começa quando ele insinua que gostaria de voltar a morar nos EUA, para ficar mais perto do filho adolescente, enquanto ela prefere ficar em Paris porque recebeu uma boa proposta de trabalho. As conversas bem-humoradas acabam descambando para acusações mútuas e, apesar de eu conseguir ver claramente o ponto de cada um, torci descaradamente por ele. Não sei se foi por solidariedade de gênero ou se a mulher foi propositalmente pintada em tons mais antipáticos (provavelmente não, já que Julie Delpy é uma das co-autoras do roteiro). "Antes do Amanhecer" é o terceiro capítulo da mais longa DR da história do cinema, e nada indica que ela acabou por aqui. Aposto que o casal estará de volta daqui a nove anos.
Foi só o papa Francisco confirmar que existe mesmo um lobby gay dentro da Cúria Romana que eu lembrei na hora de um episódio clássico de "Will & Grace". Procurei por alguma cena nas internets, mas tudo o que eu encontrei foi uma foto que, espertamente, transformei neste sensacional meme aí ao lado. Só que ninguém fique muito esperançoso com a indiscrição do papa. Esse lobby não está lá dentro para defender os direitos igualitários (nenhum cardeal chegaria à Cúria enrolado na bandeira LGBT), mas para manter seus privilégios e, dizem, seu estilo de vida debochado. Aliás, alguns ex-seminaristas garantem que, no dia em que os homossexuais forem plenamente aceitos pela sociedade, a Igreja receberá ainda menos vocações sacerdotais do que hoje.
Eu estava esperando uma releitura mais radical dos repertórios de Roberto e Erasmo Carlos por Lulu Santos. Tipo, "Se Você Pensa" transformada em mambo, ou "Festa de Arromba" em versão tribal para as pistas. Mas Lulu foi para outro lado. Apesar dos arranjos serem muito diferentes dos originais, ele decantou o DNA das canções escolhidas. Fez uma espécie de redução culinária, até chegar à essência do que elas são: rockinhos melodiosos, com forte pegada de blues. Claro que essa generalização não se estende a todo o cancioneiro da dupla. As baladonas de Roberto têm outra genealogia: vêm do bolero, do samba-canção e dos standards americanos. Mas o recorte escolhido por Lulu privilegia o lado mais dançante, com muita coisa dos tempos da Jovem Guarda. Inclusive uma que nem foi composta por Roberto e Erasmo: a brego-dramática "Você Não Serve para Mim", ressuscitada há alguns anos por Marisa Monte e aqui defendida com o auxílio de Jorge Ailton. "Lulu Canta e Toca Roberto e Erasmo" também conta com as presenças de Késia Estácio e Marquinhos oSócio, que eram do time de Lulu no "The Voice Brasil", e nasceu de um show. Devolvido aos holofotes graças ao "reality" da Globo, Lulu preferiu lançar este produto de entressafra agora e guardar suas inéditas para o ano que vem. Não fez feio: este é um bom disco. Mas agora quero ouvir Robero e Erasmo em clima de valsa ou reggaetón.
Desci do metrô na esquina da Consolação com a Paulista às sete e meia da noite. Como anteontem, já havia um monte de PMs na saída da estação. Mas também havia mais viaturas, cavalos e barricadas de motos da polícia impedindo o acesso de quase todos os veículos a duas das avenidas mais movimentadas da cidade. Acelerei o passo: melhor chegar em casa antes do pau quebrar.
Não demorou muito. Moro ao lado da Paulista e dava para escutar perfeitamente o barulho das bombas, uma novidade para meus ouvidos virgens. Pela Globo News, imagens que pareciam o começo de uma guerra no centro de São Paulo. E pelo Facebook, relatos em primeira mão de quem estava no olho do furacão.
Outro dia eu disse que o "Passe Livre" precisava de uma consultoria de marketing, porque depredar o patrimônio público e alheio era a estratégia mais segura para conquistar a antipatia da população. SP é uma metrópole traumatizada pela violência. Não importa que a grande maioria dos manifestantess que saem à rua sejam da paz: basta uma pedrada numa vitrine para a foto vir estampada nos jornais. Muitos órgãos da imprensa não estão fazendo uma cobertura isenta, mas é inegável que um PM quase foi linchado, ou que a Capela Imperial no Rio de Janeiro foi pichada. Não dá para perdoar.
Mas hoje a história se inverteu. Apavorada, a polícia atacou antes que acontecesse qualquer coisa. E justo no dia em que muita gente saiu às ruas justamente para conter os mais exaltados. Os PMs soltaram bombas de gás lacrimogêneo, baixaram o cacete e instalaram o pânico, como que para ajudar quem estava na dúvida a se decidir de que lado está. Foi o meu caso.
Uma hora não me segurei mais. A história se desenrolando a poucos metros do meu apartamento, e eu assistindo "Amor à Vida"? Desci, com meu marido correndo atrás. A rua estava engarrafada. Muita fumaça no ar. Na Haddock Lobo, em frente ao Fran's Café e ao Starbucks, uma cena bizarra, inimaginável: uma fogueira de lixo ardendo no meio da rua, e uma tropa de PMs alinhada logo atrás, escudos em riste como uma legião romana na formação de tartaruga. Um moleque de 18 anos gritava, quase afônico: "Vocês também são povo! Vocês também pagam ônibus! Essa briga também é por vocês!"
Tentei me aproximar do fogo, mas não fui muito longe. Meus olhos começaram a arder loucamente, meu nariz também. Então é isso? Já posso tirar da lista das "1.000 Coisas para Fazer Antes de Morre": gás lacrimogêneo.
Na Paulista, muita gente - mais transeuntes e curiosos do que propriamente manifestantes. O trânsito voltava a circular. Uma multidão correu para o metrô assim que ele abriu, como se fosse fechar novamente logo em seguida. Nunca vi tanta polícia junta, nem na época das Diretas Já. Um clima estranhíssimo no ar.
Acho que hoje o governo "jumped the shark". Calculou mal e agiu com truculência desnecessária. Também sinto que o movimento pode transcender os 20 centavos de aumento da passagem (que não, não são poucos) e se transformar - quem sabe - nos tais protestos contra a corrupção, a inépcia e o descaso que os pseudo-ativistas de rede social tanto cobram de quem vai à Parada Gay ou à Marcha das Vadias. Motivo já não faltava. O estopim talvez não falte mais.
Jantar romântico é para os fracos. Neste Dia dos Namorados, meu marido Oscar me deu uma prova de amor muito mais impressionante do que uma jóia de H. Stern. O pobrezinho aguentou firme ao meu lado as duas horas e meia de "Era uma Vez na Anatólia", que eu tanto queria ver. Este chatíssimo filme turco conquistou muitos prêmios e críticas maravilhosas. Não tenho o chip para entender por quê: apesar dos lindos planos e dos atores naturalistas, a trama supostamente policial do diretor Nuri Bilge Ceylan é lenta a mais não poder. Um bando de policiais procura por um cadáver junto com o suspeito do crime, mas chega uma hora em que isto é o de menos. Quem matou, por que matou, como matou, tudo isto se apequena diante do vazio existencial dos personagens. E do silêncio... Tem gente que adora. Não chegamos a odiar - até que há momentos interessantes, ainda mais para quem acabou de chegar da Turquia como nós. Mas foi uma maneira bizarra de comemorar a data de ontem. E a confirmação de que, mesmo depois de quase 23 anos de casados, ele ainda me ama! Ele ainda me ama!
O roteiro é manjado e, muito provavelmente, manipulado. O candidato com cara de coitado abre a boca, solta o vozeirão, encanta o universo, todo mundo chora e nasce uma estrela. Mas dessa vez a história me pegou. É duro não se emocionar com o drama de Jonathan Allen, expulso de casa aos 18 anos só por ser gay. Também é empolgante ver a reação do júri e da plateia do "America's Got Talent", mais um sinal claríssimo de que os tempos estão mudando. Mas fica a pergunta no ar: será que acolheriam tão bem o rapaz se ele tivesse cantado mal?
Taí uma ideia digna de ser copiada no resto do mundo. O fotógrafo francês Olivier Ciappa abre amanhã, em Paris, uma exposição de fotos de casais do mesmo sexo - só que de mentirinha. Todos os modelos são celebridades heterossexuais que, evidentemente, apoiam os direitos igualitários. Para promover o evento, Ciappa postou o cartaz acima no Facebook, mostrando os nadadores olímpicos Frédérick Bousquet e Florent Manaudou. Já tem milhares de compartilhamentos. É até comum que famosos se manifestem em prol da causa LGBT, mas não lembro de nenhum que tenha topado esse tipo de brincadeira. Allez les garçons!
Mas a França é mesmo um país curioso. Apesar do casamento gay ter sido aprovado por larga margem no Parlamento, a homofobia continua fazendo vítimas fatais. A última foi um jovem militante espancado por skinheads, num caso que gerou uma comoção nacional. Apesar disto, coisinhas miúdas ainda ferem as sensibilidades reacionárias. O poster ao lado, do filme "L'Inconnu du Lac", foi censurado nas cidades de Saint-Cloud e Versailles, em plena banlieue parisiense. Deve ser estranho viver num lugar assim, onde uma certa liberalidade convive (mal) com o pensamento mais atrasado.
Os manifestantes contra o aumento das passagens de ônibus estão precisando urgentemente dos serviços de uma consultoria de marketing. Alguém precisa dizer para eles que depredar o patrimônio público ou alheio é a maneira mais rápida de conquistar a má vontade de boa parte da população, por mais justa que seja a causa defendida. Já surgiu até mesmo a suspeita de que os protestos que acontecem em diversas cidades brasileiras foram orquestrados pelo governo e/ou interessados, justamente para colar no pessoal do "Passe Livre" a fama de arruaceiros. Eu não acredito nesses maquiavelismos, mas acredito em construção de imagem. E sugiro aos manifestantes que busquem inspiração no bom humor do movimento #OccupyGerzi na Turquia, onde até Darth Vader já deu as caras.
Silas Malafaia, Marisa Lobo e outros notórios homofóbicos estão compartilhando a foto aí ao lado como se fosse da tal "Marcha pela Família Tradicional" que aconteceu semana passada na Esplanada dos Ministérios. Só que não: a foto na verdade é do aniversário de Brasília em 2008, como já denunciaram o site Pragmatismo Político e o biólogo Eli Vieira - aquele que desmontou um por um os argumentos pseudo-científicos do MalaFAIL depois da entrevista a Marília Gabriela, em fevereiro passado. Eli, inclusive, teve removido do Facebook o post onde apontava a farsa, assim sem mais nem menos. Provavelmente foi denunciado pelos próprios farsantes e o Facebook, sempre rapidíssimo na hora de fazer cagada, aceitou. Por isto mesmo, é importante que mais gente compartilhe, denuncie e esperneie. A tal da marcha "dos bloqueadores da genitália alheia" (bravo, Eli) esperava 100 mil pessoas e mal reuniu 40 mil, segundo os cálculos da Polícia Militar ( o Datafolha talvez dissesse que foram 27). Menores ainda são as pernas dessa mentira deslavada.
Ontem foi uma daquelas noites de tudo-ao-mesmo-tempo-agora na televisão. Tive que fragmentar meu attention span entre a estreia de Marcelo Adnet no Fantástico (tema da minha coluna de hoje no F5), o final da temporada de "Game of Thrones" e a entrega daqueles prêmios que levam meu nome, embora não sejam em minha homenagem. Pela primeira vez na história (se não me engano), o canal Film & Arts transmitiu ao vivo para o Brasil a cerimônia dos Tonys - o que seria incrível para mim se o Film & Arts estivesse disponível na Net, e não apenas na Vivo TV. O jeito foi acompanhar o programa pelo site Mr. Zieg, que mostrava o feed da rede americana CBS aos trancos e barrancos (buffering... buffering...). Mesmo assim, consegui ver muita coisa. Fiquei feliz pelas vitórias de "Who's Afraid of Virginia Woolf", que eu assisti em dezembro passado: melhor revival de peça, melhor direção e melhor ator para Tracy Letts (chupa, Tom Hanks). Também vibrei por Cyndi Lauper, que ganhou pela música de "Kinky Boots". Mas nada foi mais sensacional do que o número de abertura, onde o anfitrião Neil Patrick Harris mostrou que talvez seja a pessoa mais talentosa de todos os tempos. A produção, a sincronia e a quantidade de gente em cena são o showbiz americano a todo vapor. Juro que me deu vontade de aplaudir em pé.
Um amigo me mandou esta tarde o link para um vídeo curioso: Ofra Haza, aos 21 anos de idade, cantando na TV israelense aquele que viria ser o maior sucesso de sua carreira, "Im Nin' Alu". O programa é de 1978, mas passaria por 1958 tranquilamente. Para quem não está ligando o nome à p'ssoa: Ofra foi a primeira estrela internacional nascida em Israel. Reza a lenda que seus pais emigraram a pé do Iêmen para a Terra Santa, e ela já era bastante conhecida em seu país quando DJs londrinos se meteram a remixar "Im Nin' Alu" em 1988. A música (na verdade, um cântico religioso do século 17) estourou no mundo inteiro e Ofra cantou até mesmo na Hebraica, em São Paulo. Engraçado como o vídeo acima parece pré-histórico, e não só por causa do preto-e-branco, enquanto que o de baixo, apenas 10 anos mais novo, ainda passa por atual. A cantora morreu de AIDS em 2000 - dizem que foi contaminada pelo próprio marido, que era usuário de drogas e morreu de overdose pouco tempo depois. Mas seu legado sobrevive. "Im Nin' Alu" toca por aí até hoje e chegou a ser incluída no show "Confessions" da Madonna. Ofra Haza foi uma pioneira da "world music" e abriu os ouvidos de muita gente para os sons do Oriente Médio. Inclusive os meus.
"O Grande Gatsby" foi o primeiro livro adulto que eu li na minha vida. Eu tinha 13 anos de idade e fui contaminado pela campanha de lançamento do filme com Robert Redford e Mia Farrow, uma das primeiras a contar com toda uma linha de produtos relacionados. Li uma tradução em português e "adorei". Só agora, quase 40 anos depois, é que me dispus a reler a obra mais conhecida de F. Scott Fitzgerald, dessa vez no original em inglês e novamente influenciado pelo lançamento de um filme. Finalmente posso dizer com propriedade que estou adorando. O estilo de Fitzgerald é delicioso e ilusoriamente superficial. Ele descreve festas e mansões com detalhes irônicos, tece metáforas inesperadas e revela a alma dos personagens por baixo da ostentação. O livro é um pileque literário: tem a euforia da bebedeira e a ressaca do dia seguinte. Faz cócegas no nariz e dá dor de cabeça.
Graças ao Netflix, também consegui rever o filme de 1974. É péssimo. Muito, mas muito pior do que eu me lembrava. Na época foi massacrado pela crítica e fracassou na bilheteria, e isso até foi pouco. Deviam ter ateado fogo às salas de cinema e exilado boa parte do elenco e da equipe. Mia Farrow está especialmente irritante, fazendo uma vozinha aguda que nem de longe sugere que "Daisy's voice is full of money", uma das muitas citações do livro que se tornaram famosas. O roteiro de Francis F. Coppola é extremamente fiel a Fitzgerald, mas a direção do falecido Jack Clayton é um desastre. O filme simplesmente não anda. Ainda assim levou merecidos Oscars de figurino e direção de arte, e também tem uma trilha sonora repleta de preciosidades dos anos 20. Hoje é um bonito dinossauro.
Ontem vi a versão de Baz Luhrmann (sim, cheguei a tempo no cinema). Está todo mundo malhando essa féerie em 3D, mas eu não tenho vergonha de admitir que ADOREI. Os atores estão todos bem, principalmente Leonardo Di Caprio; ele talvez fosse mais respeitado se não fosse tão perfeitinho. Se bem que aqui cabe um adendo: apesar de terem as idades adequadas para os papéis, quase todos parecem jovens demais. Lembram crianças fazendo uma peça na escola. Mas isto é o de menos: o que importa é que embarquei na artificialidade do filme. Até os excessos das festas me pareceram contidos. Eu queria mais, com mais brilho e mais presença da música, como em "Moulin Rouge" (apesar de tudo, o filme não é um musical).
No fundo, acho que toda adaptação cinematográfica de "Gatsby" está fadada às críticas ruins. E isto é por que a história em si não é satisfatória. Os "mocinhos" (ponho aspas porque ninguém é santo) são punidos por acaso, os "malvados" escapam como se nada. Também tem peças que giram em falso, como Gatsby saindo com Daisy depois da grande discussão no hotel Plaza - não faz lá muito sentido. O livro pode ser interpretado como os limites do sonho americano, onde o sucesso financeiro acaba esbarrando nas barreiras de classe (o que não é mais verdade). E também como um caso de amor gay não correspondido, pois Nick Carraway está nitidamente apaixonado por seu vizinho milionário. No novo filme ele até vai parar numa clínica de reabilitação, coisa que nunca esteve no livro.
Chegamos assim à trilha sonora. Mais uma vez Baz Luhrmann usa sons contemporâneos para ilustrar uma trama de época. Nem tudo funciona bem. O rap de Jay-Z e o rock de Jack White não combinam em nada com o universo gatsbyano. Outras faixas, sim - principalmente as que misturam elementos dos "roaring twenties". "Crazy in Love", na voz de Emeli Sandé e em ritmo de charleston, ficou irresistível, assim como "A Little Party Never Killed Nobody", com Fergie.
Como bem diz a divina Jordan Baker, em mais uma citação imortal do livro: “And I like large parties. They’re so intimate. At small parties there isn’t any privacy.”
Ontem fomos ao cinema na região da Paulista. Quando saímos, antes das 10 da noite, havia muita gente na rua. Também tinha muitos policiais e latas de lixo reviradas no chão. Perguntamos o que tinha acontecido: claro, foi a tal manifestação contra o aumento da passagem do ônibus. O quebra-quebra tinha sido na outra ponta da avenida, mas os sinais de bagunça eram visíveis na esquina da Augusta. E aí minha opinião se dividiu. Claro que é justo protestar, mas será que é preciso interromper o trânsito e atrapalhar a vida dos outros? Claro que a polícia reprimiu com mão pesada, mas os manifestante precisam reagir tacando pedras em lojas que não têm nada a ver com o pato? Parece até que alguns deles não querem que só o aumento seja cancelado: exigem passe livre nos ônibus. Viajar de graça - coisa que não existe em nenhum lugar do mundo. Hoje os protestos acontecem na região da Faria Lima. Vamos ver como a coisa evolui. Seria incrível uma mega manifestação contra a violência, a inflação, os corruptos. Por outro lado, não quero chegar atrasado ao cinema.
ATUALIZAÇÃO: Deixa eu repetir com outras palavras minha dubiedade de sentimentos, pois nos comentários tem algumas pessoas que estão entendendo um lado só. Sim, eu acho ótimo o povo ir para as ruas: acho que estamos todos acomodados e deixando os políticos fazerem o que bem entenderem, sem nenhuma reação popular. Não, isto não quer dizer que eu ache que isto tem que ser feito no lugar da Parada Gay ou coisa que o valha. Acho que temos mais é que protestar, o tempo todo, por uma infinidade de razões, e não só nas redes sociais. Sim, fiquei assustado com a depredação que vi na Paulista. Acho que não era o caso de se jogar pedras nas estações de metrô, depredar bancas de jornais ou quebrar a vitrine de lojas. Isto não ajuda o movimento: pelo contrário, gera antipatia e medo. Não, não gosto de ficar preso no trânsito, por mais solidário que eu seja com a causa. Sim, 20 centavos é muita coisa (eu nenhum lugar eu disse que era pouco), ainda mais para quem ganha pouco. Não, "passe livre" não é um pedido razoável - a não ser que alguém me mostre como isto seria possível, pois desconheço em qual lugar do mundo o transporte público é inteiramente gratuito. Sim, tenho pensamentos contraditórios, pois muita gente tem bons argumentos conflitantes nessa questão. Estou pensando em voz alta e, antes que me desqualifiquem, pensem comigo também.
A melhor razão para se ver "A Datilógrafa" é o visual do filme. Figurinos e direção de arte recriam o final dos anos 50 de maneira muito mais colorida do que realmente foi, deixando tudo com cara de caixa de bombons. A segunda melhor razão é Romain Duris: com seu queixo prognata, o ator faz mais um personagem safadamente sedutor, desses que merecem levar um tapa na cara antes de ganharem um beijo. E é exatamente isto o que acontece numa das cenas, tão previsível que é o roteiro. É claro que patrão e secretária irão se apaixonar; é claro que ele tentará de tudo para que ela quebre o recorde mundial de velocidade em datilografia, que dá título a este post. Aliás, esse pseudo-esporte é tratado como se fosse o futebol em decisão de Copa do Mundo, com direito a torcidas histéricas e transmissão ao vivo pelo rádio. Esse é o único ponto original dessa fábula pré-feminista, agradável de ser vista do começo ao fim - e esquecida poucos toques depois.
O pessoal do "Como Eu Me Sinto Quando..." nem precisa se dar ao trabalho. O melhor GIF de todos os tempos para expressar alegria, euforia, triunfo, glória e exaltação é esse clipe dos grandes momentos de Esther Williams. R.I.P., sereia.
Quero só ver se o Estatuto do Nascituro for aprovado pelo Congresso. Será que Dilma Rousseff terá o culhão de vetar essa lei medieval? Ou vai preferir entrar para a história como a presidenta em cujo mandato as mulheres perderam qualquer controle sobre o próprio corpo? Ainda acho que o projeto vai ser abortado - o apelido "bolsa estupro" já pegou, e muita gente está se mobilizando contra mais esse descalabro. Leia aqui um ótimo post da Clara Averbuck, detalhado e contundente. E lembre-se que essa briga é sua, mesmo se você for gay e não tiver a menor chance de engravidar. Os fundamentalistas religiosos na verdade lutam pela plena restauração da sociedade patriarcal, onde mulher não apita e homossexual é enforcado.
Agnaldo Timóteo nunca saiu oficialmente do armário, mas deu milhões de indiretas ao longo de sua carreira. Gravou até uma música chamada "A Galeria do Amor", em homenagem à Galeria Alaska, em Copacabana - point de gays durante décadas, pertinho de onde fica a Le Boy. Hoje esse cantor brega está semi-esquecido, tanto que amargou uma fragorosa derrota ao tentar se reeleger vereador por São Paulo ano passado. Agora volta a ser notícia, embora bem pequenininha. Ontem foi a um desses programas vespertinos de TV e criticou Daniela Mercury por "oportunismo". Oi? Então é ela quem está precisando voltar para a mídia? Além de veado mal-resolvido, Timóteo sempre teve fama de escroto. É muito triste ver uma pessoa não alcançar um mínimo de sabedoria na reta final de sua vida. Podemos dar a descarga.
Aconteceu hoje em Brasília a tal demonstração em prol da "família tradicional" convocada por Silas Malafaia. A home do UOL deu destaque a essa placa aí ao lado, que seria trágica se não fosse cômica. Trágica: é mais um exemplo da auto-vitimização dos evangélicos, que adoram se dizer "perseguidos" quando na verdade exercem um poder político desproporcional e suas igrejas, muitas delas criadas anteontem, gozam de privilégios como a imunidade fiscal. Cômica: o cartaz se esquece de dizer quem são essas minorias. E não são exatamente os gays que são mimados e autoritários. Além disso, quando foi mesmo que um fundamentalista religioso foi espancado no Brasil? Aham.
ATUALIZAÇÃO: Segundo a Polícia Militar, a passeata reuniu apenas 40 mil pessoas - bem menos que as 100 mil esperadas por Malafaia. Também teve militante da "Rede" de Marina Silva coletando assinaturas em prol do novo partido, o que mostra que ela realmente está querendo jogar nos dois times.
Fui pela primeira vez a uma gravação do "Sai de Baixo" em 2001, quando o programa já estava na reta final. O roteiro não tinha pé nem cabeça e o formato já estava nitidamente desgastado. Mesmo assim, foi uma noite divertidíssima: os atores rompiam a "quarta parede" o tempo todo, com esquecimentos, improvisos e provocações à plateia. Ontem repeti a experiência, que eu conto em detalhes na minha coluna de hoje no "F5". Nunca fui fã de carteirinha da série, mas foi uma delícia reencontrar os personagens. Algumas piadas continuam óbvias demais, e às vezes dá para suspeitar que os cacos de Caco Antibes vêm de um lado não muito simpático da cabeça de Miguel Fallabella. Mas os atores são tão bons, com um timing tão afiado (principalmente minha musa Marisa Orth), que tudo é perdoado. Foi uma catarse coletiva. Agora quero ver como ficou na TV.
A "primavera turca" já tem sua imagem-símbolo: uma elegante mulher vestida de vermelho, que resiste impavidamente ao spray de gás lacrimogêneo despejado nela por um policial. Não chega a ser um ato de bravura comparável ao do ativista que barrou o avanço de um tanque na praça Tianamen em Beijing, em 1989 - um protesto histórico que, aliás, completou ontem exatos 24 anos. Mas encapsula perfeitamente o conflito que está acontecendo na Turquia, entre a parcela laica e ocidentalizada da população e o governo islamicista e autoritário. Tanto que as fotos deram origem a uma ilustração que já está se espalhando em posters por Istambul, onde a mulher aparece enorme, como se fosse uma planta que foi muito bem regada. Mesmo assim, é bem possível que esse movimento todo acabe em pide, a pizza turca. O primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan foi eleito (e reeleito, e reeleito) democraticamente, e dificilmente irá renunciar. A oposição está fragmentada, e os fundamentalistas religiosos ainda têm muito apoio junto às classes mais baixas. Mas existe um segmento considerável que está descontente com os abusos do poder e disposto a ir para as ruas reclamar, mesmo debaixo de gás e cacetete. Quem dera existisse também na América Latina, onde países inteiros parecem anestesiados diante dos desmandos crescentes de seus líderes.